Você já ouviu falar do termo “lombalgia”?

O termo lombalgia caracteriza a dor localizada na região inferior da coluna. Trata-se de um sintoma muito comum e a principal causa de incapacidade em todo o mundo e o primeiro motivo dentre os pedidos de afastamento do trabalho no Brasil.

Ela aparece em todas as faixas etárias e está geralmente associada a sedentarismo, tabagismo, obesidade e baixo status socioeconômico.

Como é feito o tratamento da lombalgia?

Ainda hoje, os recursos da medicina para minimizar este sofrimento são limitados. Uma das maiores dificuldades no estudo deste sintoma é descobrir a causa. Segundo Jan Hartvigsen, Mark Hancock e colaboradores: “Raramente uma causa específica de lombalgia pode ser identificada; assim, a maioria das lombalgias é denominada não específica. A lombalgia é caracterizada por uma gama de dimensões biofísicas, psicológicas e sociais que prejudicam a função, a participação na sociedade e a prosperidade financeira pessoal” (The Lancet, 2018).

Existem algumas causas sérias de dor lombar persistente, como tumores, fraturas, quadros infecciosos ou inflamatórios. O fato é que, apesar de graves, esses compõem uma fração muito pequena dos casos. E se a causa não está bem definida, a indicação cirúrgica acaba sendo também a minoria dos casos. Sendo assim, os casos de cirurgia de hérnia de disco que prometem cessar a lombalgia têm muitas chances de fracassar se não forem bem avaliados.

É importante ressaltar que não existem evidências consistentes de que os exames de imagem, como a ressonância magnética, ajudam no diagnóstico e tratamento. Aliás, os guidelines não recomendam o uso rotineiro de exames de imagem para pessoas com lombalgia.

Geralmente, um quadro de lombalgia aguda se resolve até sem tratamento, porém os casos de recorrência são muito comuns. Além disso, uma pequena parte destas pessoas vai evoluir com dor persistente e incapacitante, que levará a grande sofrimento psicológico.

A lombalgia persistente, chamada de crônica (a partir de 3 meses de duração), vai precisar de tratamento conduzido por profissionais especialistas, como médico, fisioterapeuta, psicólogo e educador físico, entre outros.

Em relação ao tratamento fisioterapêutico, uma avaliação detalhada é fundamental para que a prescrição seja personalizada.

Nos casos agudos o paciente depende muito da medicação para controlar a dor e conseguir seguir com a maioria de suas atividades. O papel do fisioterapeuta será muito mais voltado para orientações e esclarecimentos, até que a dor esteja controlada o suficiente para o completo restabelecimento da mobilidade do indivíduo.

Já nos casos crônicos, quando o organismo já deveria ter resolvido a causa da dor e parece não ter conseguido, o fisioterapeuta precisa ser cauteloso ao afirmar que somente o tratamento físico será suficiente. Uma avaliação mais ampla é de suma importância, com escuta ativa que permita alinhar as expectativas do paciente com o prognóstico.

Qual o papel do profissional no tratamento da lombalgia?

O profissional tem papel educativo fundamental, esclarecendo quais os mecanismos fisiológicos que estão por trás da cronicidade de uma dor que já devia ter desaparecido. Quanto mais claro para o paciente, maiores são as chances de sucesso no controle da dor.

Além disso, é comum que o paciente traga inseguranças em relação ao retorno às suas atividades normais, muitas vezes advindas do que ouviu falar ou leu na internet. São frequentes as informações errôneas ensinando que é perigoso agachar ou carregar peso, girar o tronco ou fazer exercícios de alto impacto. Estas informações não têm comprovação científica e acabam por gerar o que chamamos de “nocebo”.

Do latim, “fazer mal”, o efeito Nocebo gera crenças irreais de que certas atitudes podem trazer malefícios à saúde do indivíduo. Algumas informações muito comuns que geram Nocebo são:

– Agachar sem dobrar os joelhos faz mal para a coluna lombar;

– Pegar peso gera hérnia de disco;

– Dormir de bruços faz mal para a coluna;

– Usar o celular causa dores no pescoço;

– Exercícios físicos pioram a dor na coluna; etc.

Mudar este tipo de crença e propor exercícios nesses casos nem sempre é fácil. É necessário que um vínculo de confiança seja criado, que permita ao paciente experimentar movimentar-se de novo, como fazia antes da dor, ou de um jeito novo, que o liberte do medo de se mexer.

Existem técnicas de “exposição gradual” que visam devolver aos poucos os movimentos que trazem medo, fragmentando-os em partes. Nestes casos, o terapeuta elenca uma das atividades que o paciente deixou de fazer por medo e propõe formas seguras de realizá-la. Inicialmente em pequenas amplitudes e com apoio, posteriormente aumentando a amplitude e depois retirando o apoio, por exemplo.

Dar ao paciente condições de assumir a autonomia sobre sua saúde é mais um ponto importante do tratamento fisioterapêutico.

Não é positivo que o indivíduo dependa do fisioterapeuta para saber o que fazer num dia de dor mais intensa. O interessante é que ele já saiba o que fazer para seu próprio alívio, quais exercícios lhe favorecem e quais não.

Hábitos saudáveis podem ajudar no tratamento da lombalgia

O incentivo a um estilo saudável de vida, sem dúvida, é precioso para o prognóstico de quem sofre de lombalgia. Como dito no início deste texto, alguns dos fatores de risco são o sedentarismo, o tabagismo e a obesidade, todos evitáveis e passíveis de mudança sem muito investimento que pudesse dificultar o indivíduo de baixo poder econômico.

Orientar uma alimentação saudável e a prática de exercícios aeróbicos e resistidos pode fazer toda a diferença no prognóstico e evitar as reincidências.

Além disso, é preciso estar atento à condição emocional do paciente. Estudos mostram que existe associação entre dor crônica e ansiedade, depressão e distúrbios de sono, áreas que não são de domínio de fisioterapeuta, mas que devem ser abordadas e encaminhadas aos devidos profissionais.

Uma prática que a literatura já consagrou como eficiente no controle não só da dor crônica, mas também dos distúrbios de ansiedade, depressão e sono é a meditação. Trata-se de uma terapêutica livre de religiosidade ou medicações e que está acessível através de sites ou apps gratuitos.

Enfim, a lombalgia persistente ou crônica é um sintoma de difícil tratamento, que atinge aspectos físicos, psicológicos e sociais do indivíduo, necessitando, portanto, de equipe especializada multidisciplinar para aumentar as chances de sucesso no tratamento.